Quanto maior o saber, maior o sofrimento
Eclesiastes 1:18
Eu
não poderia suportar que me dissessem que quanto mais se pensa, mais se é
infeliz. Isso vale em relação às pessoas que pensam mal. Não estou falando das
pessoas que pensam mal dos outros, o que pode ser divertido, mas tragicamente
divertido. [...] Rearranjam os seus preconceitos e julgam estar pensando. Estes
sim merecem compaixão, porque têm uma doença da alma, e toda doença é um estado
triste. Infeliz. Eu amo as pessoas que pensam de forma correta, mesmo aquelas
que pensam de maneira diferente de mim. Pensar, meus amigos, é um ato que põe
em dúvida a estrutura de tudo!
Antonio Abujamra
No
dia 15 de outubro, a cada ano, textos, vídeos e imagens reverberam, na vida
social, inúmeras homenagens às contribuições das e dos educadores, aos seus
educandos e à sociedade. O “Dia do Professor” foi um marco de reconhecimento formal
à docência instituído de cima para baixo, que surgiu com o Decreto Federal Nº
52.682 de Jango, em 1963, antes do presidente, que abraçou as reformas sociais
de base, ser deposto por um golpe articulado por diversos setores que levou a
21 anos de ditadura empresarial-militar.
Com
as redes sociais, a era da “infodemia”, somos tomados por uma epidemia de
informações. Tais homenagens às e os professores ressaltam, sobretudo, o lado
“luminoso” da profissão e às vezes seus desafios, ou seja, a face mais visível
e, por consequência, superficial das transformações individuais e coletivas que
a educação, quando é emancipadora, ao invés de reprodutora das desigualdades, é
capaz de germinar nos corpos e nos povos. Ainda que superficiais, elas não são
de todo equivocadas, mas, de fato, reais. Há sempre alguém que tenha ao menos
um(a) educador(a), ou muitos, professores e professoras na memória que marcaram
o seu caminho e o devir da humanidade. Mas as mensagens apologéticas, como
estratégias semióticas de comunicação motivacional que convida à reflexão sobre
as luzes e às flores, sem as contradições do ofício, ocultam os “ossos”
conhecidos e submersos na realidade educacional, nas salas das inúmeras escolas
atingidas pela precarização ultraliberal.
O
marco simbólico do “Dia do Professor” que decretou o feriado e as solenidades
foi escrito entre aspas porque, assim como o dia dos trabalhadores e das mães,
ocorre todos os dias do ano, mesmo aos finais de semana – sobretudo em tempos
de uberização e flexiblização do trabalho sem direitos –; por outro lado, não é
o dia do reconhecimento efetivo, da melhora na materialidade e no futuro na
vida das e dos educadores. Logo, não é um dia que deve ser tomado como algo inquestionável,
mas sim um convite para a reflexão sobre os céus, os albatrozes, as espumas nas
ondas da docência, e, também, as zonas obscuras e abissais na paisagem da trama
privada das políticas educacionais.
As
luzes e as sombras são fenômenos complementares na inevitável dialética da
vida, que é, essencialmente, um movimento social e histórico conduzido por
contradições. A metáfora hegeliana da formação de uma rosa, na obra
Fenomenologia do Espírito, é interessante para pensar a transformação da
semente em flor: a fase do ulterior desenvolvimento nega e, ao mesmo tempo,
preserva a si mesma. Do mesmo modo, não há os dias sem as noites, pois ambos
sucedem sem serem iguais; as velhices sem as infâncias; as larvas sem as
mariposas – todas as fases da existência são como o rio que, tal como
Heráclito, não é possível conhecer duas vezes. As águas e o ser não são os
mesmos. À medida que a educação pública preserva os elementos do passado, como
o analfabetismo e o autoritarismo, há também avanços, como a democratização do
ensino.
Neste
emblemático dia 15 de outubro, as e os que outrora eram vistos como
“doutrinadores”, “baderneiros”, “maquiavélicos”, no uso comum do termo para não
ofender Maquiavel, atuavam como manipuladores dos estudantes “inocentes” e eram
merecedores da cicuta de Sócrates, profanadores do espírito cívico dos jovens e
dos deuses, de um dia para o outro, tornam-se semeadores de sonhos, de possibilidades,
condutores munidos de livros, rumo aos horizontes novos. “Os livros não mudam o
mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”, dentre
outras frases de impacto e beleza luminosa, povoam o encantamento e o
deslumbramento com a educação. Contudo, sem a análise dos grupos e as classes
que tensionam a luta pela educação, dificilmente é possível sair da
superficialidade das homenagens abstratas – senão, como ressaltou Engels na
obra Anti-Dühring, corre-se o risco de cair no idealismo e na metafísica,
ou seja, olhar uma árvore, a realidade individual da própria experiência, e
esquecer que há uma totalidade mais ampla: as florestas e as sociedades.
Quem
se questiona sobre a zona abissal da educação pública, ou a instrução que
abrange a maioria da população, depara-se, logo de início, com a constatação
cirúrgica de que “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é projeto”, frase
proferida pelo antropólogo e militante trabalhista Darcy Ribeiro. O interesse
velado, raramente explícito, das classes dominantes, ao longo da História do
Brasil, sabotam a educação das massas trabalhadoras, pois o conhecimento da
realidade, acompanhado da inquietação, são as centelhas que levam à corrosão e
ao desmoronamento dos poderes estabelecidos. Um trabalhador com a consciência
da classe a qual pertence não age contra si próprio e os seus camaradas,
pressiona o seu patrão, os governos, o Estado, organiza-se com uma coletividade
ou, quando autônomo, não aceita “as coisas tal como sempre foram”. Não à toa,
em 1867, Marx sentenciou: “o escravo romano era preso por grilhões; o
trabalhador assalariado está preso a seu proprietário por fios invisíveis. A
ilusão de sua independência se mantém pela mudança contínua dos seus patrões e
com a ficção jurídica do contrato.”
Somente
através da organização dos “debaixo”, como dizia o ferrenho defensor da
educação pública crítica e emancipadora, o sociólogo Florestan Fernandes, é
possível a transformação das estruturas que mantém a opressão das jornadas
extensas de trabalho, dos baixos salários, das salas de aula superlotadas, dos
contratos temporários sem um horizonte — quando nos pedem para lecionar a
disciplina individualista do “Projeto de Vida”, sem que sequer o País tenha um
projeto de futuro, exceto o mesquinho projeto da “regressão neocolonial”, da
desindustrialização, da Barbárie e da dependência em relação ao Norte global.
As contrarreformas trabalhista — que levou à primazia do acordado sobre o
legislado ; previdenciária — cujo lema é “trabalhe até morrer”; as políticas de
austeridade e o “Teto de Gastos”, que fazem saúde e educação serem gastos, e
não investimentos; e a retirada dos direitos conquistados, são alguns exemplos
dos Golias nas frentes de batalha que aguardam as e os operários do
conhecimento: as e os professores.
Para
retornar às luzes e para não dizer que falei das flores, como cantou Vandré, e à face completar delas, as sombras, retomo dois poemas: “Autorretrato”,
do chileno Nicanor Parra e “Elogio da Dialética”, do dramaturgo e poeta alemão
Bertolt Brecht. O primeiro, mais sombrio, “abissal” e entristecedor, reflete a
realidade concreta das e dos milhares de educadoras e educadores. O segundo
permite vermos as luzes, uma “luz no fim do túnel”, mesmo quando há outro longo
e incerto túnel por vir: o sentido afirmativo de uma esperaça coletiva, sem que
esta seja uma resignada espera individual.
Autorretrato
Considerem, meninos,
Sou professor em um liceu sem brilho,
Perdi a voz dando aula atrás de aula.
(Depois de tudo ou nada
Dou quarenta horas semanais).
Que lhes parece minha cara a bofetadas?
Não é mesmo uma lástima me olhar?
E o que dizer deste nariz apodrecido
Pela cal de um giz tão branco e
degradante.
Em matéria de olhos, a três metros
Não reconheço nem minha própria mãe.
O que há comigo? – Nada!
Eu os perdi assim dando aulas, só:
A luz ruim, o sol,
A venenosa luz miserável.
E tudo, para quê?
Para ganhar um pão imperdoável
Tão duro como a cara do burguês
E com odor e com sabor de sangue.
Para que haver nascido como homens
Se a morte que nos dão é de animais?
Pelo excesso de trabalho, muitas vezes
Vejo formas estranhas pelo ar,
Ouço corridas loucas,
Risos, conversas assassinas,
Observem estas mãos
E as maçãs do rosto do cadáver,
Estes escassos cabelos que me restam
Estas rugas tão negras do inferno!
E, no entanto, eu já fui como vocês,
Jovem, cheio de ideais,
Sonhei fundindo o cobre
E limando as faces do diamante:
Eis me aqui agora
Por trás dessa mesa desconfortável
Embrutecido pela ladainha
Das tais quinhentas horas semanais.
Nicanor Parra
Elogio da Dialética
A
injustiça vai por aí com passos firmes.
Os
tiranos se organizam para dez mil anos.
O
poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.
Nenhuma
voz senão a voz dos dominantes.
E
nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.
Já
entre os súditos muitos dizem:
O
que queremos, nunca alcançaremos.
Quem
ainda está vivo, nunca diga: nunca!
O
mais firme não é firme.
Assim
como é não ficará.
Depois
que os dominantes tiverem falado
Falarão
os dominados.
Quem
ousa dizer: nunca?
A
quem se deve a duração da tirania? A nós.
A
quem sua derrubada? Também a nós.
Quem
será esmagado, que se levante!
Quem
está perdido, que lute!
Quem
se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?
Os
vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.
E
nunca será: ainda hoje.
Bertolt Brecht
* Doutorando em Educação na
Universidade Estadual de Ponta Grossa, mestre em Educação (Faculdade de
Educação da Unicamp), bacharel e licenciado em História (FCHS – Unesp).
Membro do GPCATE - Grupo de Pesquisa Capital, Trabalho, Estado, Educação e
Políticas Educacionais (UEPG).

