quarta-feira, 27 de novembro de 2024

REFLEXÕES SOBRE O DIA DOS PROFESSORES

 




                        Quanto maior o saber, maior o sofrimento

 

Eclesiastes 1:18

 

Eu não poderia suportar que me dissessem que quanto mais se pensa, mais se é infeliz. Isso vale em relação às pessoas que pensam mal. Não estou falando das pessoas que pensam mal dos outros, o que pode ser divertido, mas tragicamente divertido. [...] Rearranjam os seus preconceitos e julgam estar pensando. Estes sim merecem compaixão, porque têm uma doença da alma, e toda doença é um estado triste. Infeliz. Eu amo as pessoas que pensam de forma correta, mesmo aquelas que pensam de maneira diferente de mim. Pensar, meus amigos, é um ato que põe em dúvida a estrutura de tudo!

 

Antonio Abujamra

 

No dia 15 de outubro, a cada ano, textos, vídeos e imagens reverberam, na vida social, inúmeras homenagens às contribuições das e dos educadores, aos seus educandos e à sociedade. O “Dia do Professor” foi um marco de reconhecimento formal à docência instituído de cima para baixo, que surgiu com o Decreto Federal Nº 52.682 de Jango, em 1963, antes do presidente, que abraçou as reformas sociais de base, ser deposto por um golpe articulado por diversos setores que levou a 21 anos de ditadura empresarial-militar.

Com as redes sociais, a era da “infodemia”, somos tomados por uma epidemia de informações. Tais homenagens às e os professores ressaltam, sobretudo, o lado “luminoso” da profissão e às vezes seus desafios, ou seja, a face mais visível e, por consequência, superficial das transformações individuais e coletivas que a educação, quando é emancipadora, ao invés de reprodutora das desigualdades, é capaz de germinar nos corpos e nos povos. Ainda que superficiais, elas não são de todo equivocadas, mas, de fato, reais. Há sempre alguém que tenha ao menos um(a) educador(a), ou muitos, professores e professoras na memória que marcaram o seu caminho e o devir da humanidade. Mas as mensagens apologéticas, como estratégias semióticas de comunicação motivacional que convida à reflexão sobre as luzes e às flores, sem as contradições do ofício, ocultam os “ossos” conhecidos e submersos na realidade educacional, nas salas das inúmeras escolas atingidas pela precarização ultraliberal.

O marco simbólico do “Dia do Professor” que decretou o feriado e as solenidades foi escrito entre aspas porque, assim como o dia dos trabalhadores e das mães, ocorre todos os dias do ano, mesmo aos finais de semana – sobretudo em tempos de uberização e flexiblização do trabalho sem direitos –; por outro lado, não é o dia do reconhecimento efetivo, da melhora na materialidade e no futuro na vida das e dos educadores. Logo, não é um dia que deve ser tomado como algo inquestionável, mas sim um convite para a reflexão sobre os céus, os albatrozes, as espumas nas ondas da docência, e, também, as zonas obscuras e abissais na paisagem da trama privada das políticas educacionais.

As luzes e as sombras são fenômenos complementares na inevitável dialética da vida, que é, essencialmente, um movimento social e histórico conduzido por contradições. A metáfora hegeliana da formação de uma rosa, na obra Fenomenologia do Espírito, é interessante para pensar a transformação da semente em flor: a fase do ulterior desenvolvimento nega e, ao mesmo tempo, preserva a si mesma. Do mesmo modo, não há os dias sem as noites, pois ambos sucedem sem serem iguais; as velhices sem as infâncias; as larvas sem as mariposas – todas as fases da existência são como o rio que, tal como Heráclito, não é possível conhecer duas vezes. As águas e o ser não são os mesmos. À medida que a educação pública preserva os elementos do passado, como o analfabetismo e o autoritarismo, há também avanços, como a democratização do ensino.

Neste emblemático dia 15 de outubro, as e os que outrora eram vistos como “doutrinadores”, “baderneiros”, “maquiavélicos”, no uso comum do termo para não ofender Maquiavel, atuavam como manipuladores dos estudantes “inocentes” e eram merecedores da cicuta de Sócrates, profanadores do espírito cívico dos jovens e dos deuses, de um dia para o outro, tornam-se semeadores de sonhos, de possibilidades, condutores munidos de livros, rumo aos horizontes novos. “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”, dentre outras frases de impacto e beleza luminosa, povoam o encantamento e o deslumbramento com a educação. Contudo, sem a análise dos grupos e as classes que tensionam a luta pela educação, dificilmente é possível sair da superficialidade das homenagens abstratas – senão, como ressaltou Engels na obra Anti-Dühring, corre-se o risco de cair no idealismo e na metafísica, ou seja, olhar uma árvore, a realidade individual da própria experiência, e esquecer que há uma totalidade mais ampla: as florestas e as sociedades.

Quem se questiona sobre a zona abissal da educação pública, ou a instrução que abrange a maioria da população, depara-se, logo de início, com a constatação cirúrgica de que “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é projeto”, frase proferida pelo antropólogo e militante trabalhista Darcy Ribeiro. O interesse velado, raramente explícito, das classes dominantes, ao longo da História do Brasil, sabotam a educação das massas trabalhadoras, pois o conhecimento da realidade, acompanhado da inquietação, são as centelhas que levam à corrosão e ao desmoronamento dos poderes estabelecidos. Um trabalhador com a consciência da classe a qual pertence não age contra si próprio e os seus camaradas, pressiona o seu patrão, os governos, o Estado, organiza-se com uma coletividade ou, quando autônomo, não aceita “as coisas tal como sempre foram”. Não à toa, em 1867, Marx sentenciou: “o escravo romano era preso por grilhões; o trabalhador assalariado está preso a seu proprietário por fios invisíveis. A ilusão de sua independência se mantém pela mudança contínua dos seus patrões e com a ficção jurídica do contrato.”

Somente através da organização dos “debaixo”, como dizia o ferrenho defensor da educação pública crítica e emancipadora, o sociólogo Florestan Fernandes, é possível a transformação das estruturas que mantém a opressão das jornadas extensas de trabalho, dos baixos salários, das salas de aula superlotadas, dos contratos temporários sem um horizonte — quando nos pedem para lecionar a disciplina individualista do “Projeto de Vida”, sem que sequer o País tenha um projeto de futuro, exceto o mesquinho projeto da “regressão neocolonial”, da desindustrialização, da Barbárie e da dependência em relação ao Norte global. As contrarreformas trabalhista — que levou à primazia do acordado sobre o legislado ; previdenciária — cujo lema é “trabalhe até morrer”; as políticas de austeridade e o “Teto de Gastos”, que fazem saúde e educação serem gastos, e não investimentos; e a retirada dos direitos conquistados, são alguns exemplos dos Golias nas frentes de batalha que aguardam as e os operários do conhecimento: as e os professores.

Para retornar às luzes e para não dizer que falei das flores, como cantou Vandré, e à face completar delas, as sombras, retomo dois poemas: “Autorretrato”, do chileno Nicanor Parra e “Elogio da Dialética”, do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht. O primeiro, mais sombrio, “abissal” e entristecedor, reflete a realidade concreta das e dos milhares de educadoras e educadores. O segundo permite vermos as luzes, uma “luz no fim do túnel”, mesmo quando há outro longo e incerto túnel por vir: o sentido afirmativo de uma esperaça coletiva, sem que esta seja uma resignada espera individual.

 

Autorretrato

 

 

Considerem, meninos,

Sou professor em um liceu sem brilho,

Perdi a voz dando aula atrás de aula.

(Depois de tudo ou nada

Dou quarenta horas semanais).

Que lhes parece minha cara a bofetadas?

Não é mesmo uma lástima me olhar?

E o que dizer deste nariz apodrecido

Pela cal de um giz tão branco e degradante.

 

Em matéria de olhos, a três metros

Não reconheço nem minha própria mãe.

O que há comigo? – Nada!

Eu os perdi assim dando aulas, só:

A luz ruim, o sol,

A venenosa luz miserável.

E tudo, para quê?

Para ganhar um pão imperdoável

Tão duro como a cara do burguês

E com odor e com sabor de sangue.

Para que haver nascido como homens

Se a morte que nos dão é de animais?

 

Pelo excesso de trabalho, muitas vezes

Vejo formas estranhas pelo ar,

Ouço corridas loucas,

Risos, conversas assassinas,

Observem estas mãos

E as maçãs do rosto do cadáver,

Estes escassos cabelos que me restam

Estas rugas tão negras do inferno!

 

E, no entanto, eu já fui como vocês,

Jovem, cheio de ideais,

Sonhei fundindo o cobre

E limando as faces do diamante:

Eis me aqui agora

Por trás dessa mesa desconfortável

Embrutecido pela ladainha

Das tais quinhentas horas semanais.


Nicanor Parra

 

Elogio da Dialética

 

A injustiça vai por aí com passos firmes.

Os tiranos se organizam para dez mil anos.

O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.

Nenhuma voz senão a voz dos dominantes.

E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.

Já entre os súditos muitos dizem:

O que queremos, nunca alcançaremos.

 

Quem ainda está vivo, nunca diga: nunca!

O mais firme não é firme.

Assim como é não ficará.

Depois que os dominantes tiverem falado

Falarão os dominados.

Quem ousa dizer: nunca?

 

A quem se deve a duração da tirania? A nós.

A quem sua derrubada? Também a nós.

Quem será esmagado, que se levante!

Quem está perdido, que lute!

Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?

Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.                                                                                                     

 

Bertolt Brecht

 



* Doutorando em Educação na Universidade Estadual de Ponta Grossa, mestre em Educação (Faculdade de Educação da Unicamp), bacharel e licenciado em História (FCHS – Unesp). Membro do GPCATE - Grupo de Pesquisa Capital, Trabalho, Estado, Educação e Políticas Educacionais (UEPG).

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