segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Sentidos da palavra História e alguns historiadores




Os infinitos heróis desconhecidos valem tanto quanto

os maiores heróis da história.

(Walt Whitman) 

A função do historiador é lembrar a sociedade

daquilo que ela quer esquecer

(Peter Burke)

**

Sentido da palavra, segundo Heródoto (485 a.C. – 425 a.C.) o “pai da História”: 

Procura das ações realizadas pelos homens

Grego antigo – Historie (dialeto jônico)

 

    Raíz indo-européia: -wid -weid (“ver”)

    Sânscrito: “vettas” – testemunha

    Histor: “aquele que vê” ou “aquele que sabe”

    Historein = procurar saber; informar-se.

 

     “Com Heródoto [historiador grego], o que conta na narração histórica não é a importância do testemunho. Para ele, o testemunho por excelência é o testemunho pessoal, aquele em que o historiador pode dizer: vi e ouvi. Isto é especialmente verdade na parte da sua investigação dedicada aos bárbaros, cujo país percorreu durante suas viagens (cf. Hartog, 1980). E também o é quanto à narração das guerras medas, acontecimento da geração que o precedeu, cujo testemunho recolhe diretamente, por ouvir dizer. Esta primazia dada ao testemunho oral e vivido manter-se-á em história, esbater-se-á em história mais ou menos quando a crítica dos documentos escritos, pertencentes a passado longínquo, passar a um primeiro plano, mas conhecerá importantes ressurgências.” (Le Goff, 2012, p. 112)

     Paul Veyne aponta um outro significado para a História, presente desde Heródoto: a importância da narração para reconstruir os acontecimentos. Contudo, é a partir do século XIX que a narração dos acontecimentos irá adquirir legitimidade como uma ciência histórica, através dos metódicos/positivistas – criticados depois pela Escola dos Annales, que elaborou a História “problema” em oposição à história História factual;

     • História Política Tradicional ( caracterizada pela figura central de Grandes Personagens e, porteriormente, chamada de “História dos vencedores”): vê o passado como uma “rocha sólida”, com poucas fissuras e problemas, marcada por "fatos"; 

     • História Econômica/ Social (Estruturas sociais, classes, as vozes dos homens comuns). A História passa, com os Annales, a ser pensada como uma ciência com fissuras, com questões trazidas pelo presente: uma construção feita através das fontes. 



   Segundo Le Goff, os historiadores, desde os remotos tempos da Antiguidade, se debruçam nos acontecimentos próximos ao seu tempo, ou são motivados a refletir por questões do seu próprio tempo: “as civilizações clássicas (Grécia e Roma) eram fundamentalmente a-históricas [...] os escritores da Antiguidade clássica, no seu conjunto, preocupavam-se tão pouco com o futuro, como com o passado. Tucídides pensava que nada de significativo se tinha passado antes do acontecimento que estava a descrever e que seria pouco provável que viesse a acontecer depois" (p. 103-5).

     “Não existe História sem problema”, segundo Lucien Febvre e Marc Bloch. Esta visão de História, mais do que romper com a visão positivista e factual da “História relato” de Langlois e Seignobos, buscou ampliar a própria concepção de História e do trato com as fontes históricas. Para os historiadores, além da cronologia e da preocupação do passado “tal como ele foi” é preciso levantar indagações, problematizar e questionar as fontes históricas e as versões do passado, incompleto àqueles que não tem acesso a ele... 

     A ideia de “linha do tempo”, na concepção de Le Goff, é filha da Modernidade, ou seja,  surge a partir do século XVI. Apesar de a tomarmos como algo natural ela nem sempre existiu. Com o movimento de ideias do Iluminismo a partir do século XVIII, foi sendo formulada a divisão do tempo em blocos de períodos históricos estanques: o “antigo” em oposição ao “moderno”




Na obra de Le Goff, intitulada História e Memória, na p. 47, há uma afirmação importante para o estudo desse campo: "não há história imóvel e a história também não é pura mudança, mas o estudo das mudanças significativas. A periodização é o principal instrumento de inteligibilidade (o que é inteligível/ o pode ser compreendido) das mudanças significativas [...] o saber histórico é seletivo e limitado".

Atualmente, nós pouco questionamos sobre esta linearidade da divisão do tempo. Seria o tempo histórico linear ou descontínuo? Caminhamos, de fato, rumo ao progresso como queria Augusto Comte e seus discípulos positivistas que criaram a bandeira "Ordem e Progresso"? À revolução social, política e econômica como refletem e militam os anarquistas e marxistas? À salvação como desejam os cristãos em suas diferentes matizes? A ideia de que a História possui um sentido determinado a priori (telos) prevaleceu durante muito tempo e recebe o nome de teleologia; Nos tempos atuais, nos perguntamos se a História caminha para algum lugar... Barbárie?

Do ponto de vista sociológico, para Melucci (1997, p. 5), na modernidade, o tempo era linear; em sociedades complexas, descontínuo. A máquina, no capitalismo industrial, cujo melhor exemplo é o relógio, dava uma noção de continuidade aos indivíduos, rompendo com o tempo natural das coisas. Durante a modernidade, tinha-se em vista, no horizonte, um sentido ou um fim para o curso da História: o progresso, a revolução, a riqueza das nações ou a salvação da humanidade (um tempo linear que se move em direção a um fim é a última herança dessacralizada de um tempo cristão).

A modo de conclusão provisória, encerro com a provocação do historiador Fernando Novais, na conferência “Colonização e a formação do Brasil: estruturas e interpretações” do Café Filosófico: "Em História não basta tematizar, é preciso problematizar [...] em História não há soluções, há aproximações”.



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