segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Por que estudar História? - Laura de Mello e Souza*

                                                                     São Jerônimo escrevendo, Caravaggio (1606)


        Para responder esta pergunta, a primeira frase que me ocorre é a resposta clássica dada pelo grande Marc Bloch a seu neto, quando o menino lhe perguntou para que servia a História e ele disse que, pelo menos, servia para divertir. Após 45 anos de vida profissional efetiva, como pesquisadora durante seis anos e, desde então – 39 anos – também como docente do ensino universitário, considero que a diversão é essencial, entendida no sentido de prazer pessoal: a melhor coisa do mundo é fazer algo que gostamos de fato, e eu sempre adorei História, sempre foi minha matéria preferida na escola, junto com as línguas em geral.

Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para a compreensão de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Política, Filosofia, Economia, todas essas disciplinas têm de se reportar à História incessantemente, e com tal intensidade que o historiador francês Paul Veyne afirmou, com boa dose de provocação, que como tudo era História, a História não existia (em Como escrever a História).

Quando os homens da primeira Época Moderna começaram a enfrentar para valer a questão de uma História secular, que pudesse reconstruir o passado humano independente da história da criação – dos livros sagrados, sobretudo da Bíblia – eles desenvolveram a erudição e a preocupação com os detalhes, os fatos, os vestígios humanos – as escavações arqueológicas, por exemplo – e criaram as bases dos procedimentos que até hoje norteiam os historiadores. Mesmo que hoje os historiadores sejam reticentes quanto à possibilidade de reconstruir o passado tal como ele foi, qualquer historiador responsável procura compreender o passado do modo mais cuidadoso e acurado possível, prestando atenção aos filtros que se interpõem entre ele, historiador, e o passado. Qualquer historiador digno do nome busca, como aprendi com meu mestre Fernando Novais, compreender, mesmo se por meio de aproximações. Compreender importa muito mais do que arquitetar explicações engenhosas ou espetaculares, e que podem ser datadas, pois cada geração almeja se afirmar com relação às anteriores ancorando-se numa pseudo-originalidade.

Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.

A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – para dizer o mínimo- , de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivi quase toda a vida e que amo profundamente, fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.

Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas evidências indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.

Na minha adolescência, sonhei ser médica. No ensino médio, tive boas relações com a Biologia, mas a Matemática e a Física não me trataram bem. Acabei desistindo dessa profissão extraordinária e cedendo à grande paixão pelo conhecimento histórico. É curioso constatar, a esta altura da vida, que nunca, como hoje, o Brasil precisou tanto de médicos e de historiadores competentes.

*

Laura de Mello e Souza. Professora Titular Aposentada da Universidade de São Paulo Titular da Cátedra de História do Brasil da Universidade Paris Sorbonne.


Sentidos da palavra História e alguns historiadores




Os infinitos heróis desconhecidos valem tanto quanto

os maiores heróis da história.

(Walt Whitman) 

A função do historiador é lembrar a sociedade

daquilo que ela quer esquecer

(Peter Burke)

**

Sentido da palavra, segundo Heródoto (485 a.C. – 425 a.C.) o “pai da História”: 

Procura das ações realizadas pelos homens

Grego antigo – Historie (dialeto jônico)

 

    Raíz indo-européia: -wid -weid (“ver”)

    Sânscrito: “vettas” – testemunha

    Histor: “aquele que vê” ou “aquele que sabe”

    Historein = procurar saber; informar-se.

 

     “Com Heródoto [historiador grego], o que conta na narração histórica não é a importância do testemunho. Para ele, o testemunho por excelência é o testemunho pessoal, aquele em que o historiador pode dizer: vi e ouvi. Isto é especialmente verdade na parte da sua investigação dedicada aos bárbaros, cujo país percorreu durante suas viagens (cf. Hartog, 1980). E também o é quanto à narração das guerras medas, acontecimento da geração que o precedeu, cujo testemunho recolhe diretamente, por ouvir dizer. Esta primazia dada ao testemunho oral e vivido manter-se-á em história, esbater-se-á em história mais ou menos quando a crítica dos documentos escritos, pertencentes a passado longínquo, passar a um primeiro plano, mas conhecerá importantes ressurgências.” (Le Goff, 2012, p. 112)

     Paul Veyne aponta um outro significado para a História, presente desde Heródoto: a importância da narração para reconstruir os acontecimentos. Contudo, é a partir do século XIX que a narração dos acontecimentos irá adquirir legitimidade como uma ciência histórica, através dos metódicos/positivistas – criticados depois pela Escola dos Annales, que elaborou a História “problema” em oposição à história História factual;

     • História Política Tradicional ( caracterizada pela figura central de Grandes Personagens e, porteriormente, chamada de “História dos vencedores”): vê o passado como uma “rocha sólida”, com poucas fissuras e problemas, marcada por "fatos"; 

     • História Econômica/ Social (Estruturas sociais, classes, as vozes dos homens comuns). A História passa, com os Annales, a ser pensada como uma ciência com fissuras, com questões trazidas pelo presente: uma construção feita através das fontes. 



   Segundo Le Goff, os historiadores, desde os remotos tempos da Antiguidade, se debruçam nos acontecimentos próximos ao seu tempo, ou são motivados a refletir por questões do seu próprio tempo: “as civilizações clássicas (Grécia e Roma) eram fundamentalmente a-históricas [...] os escritores da Antiguidade clássica, no seu conjunto, preocupavam-se tão pouco com o futuro, como com o passado. Tucídides pensava que nada de significativo se tinha passado antes do acontecimento que estava a descrever e que seria pouco provável que viesse a acontecer depois" (p. 103-5).

     “Não existe História sem problema”, segundo Lucien Febvre e Marc Bloch. Esta visão de História, mais do que romper com a visão positivista e factual da “História relato” de Langlois e Seignobos, buscou ampliar a própria concepção de História e do trato com as fontes históricas. Para os historiadores, além da cronologia e da preocupação do passado “tal como ele foi” é preciso levantar indagações, problematizar e questionar as fontes históricas e as versões do passado, incompleto àqueles que não tem acesso a ele... 

     A ideia de “linha do tempo”, na concepção de Le Goff, é filha da Modernidade, ou seja,  surge a partir do século XVI. Apesar de a tomarmos como algo natural ela nem sempre existiu. Com o movimento de ideias do Iluminismo a partir do século XVIII, foi sendo formulada a divisão do tempo em blocos de períodos históricos estanques: o “antigo” em oposição ao “moderno”




Na obra de Le Goff, intitulada História e Memória, na p. 47, há uma afirmação importante para o estudo desse campo: "não há história imóvel e a história também não é pura mudança, mas o estudo das mudanças significativas. A periodização é o principal instrumento de inteligibilidade (o que é inteligível/ o pode ser compreendido) das mudanças significativas [...] o saber histórico é seletivo e limitado".

Atualmente, nós pouco questionamos sobre esta linearidade da divisão do tempo. Seria o tempo histórico linear ou descontínuo? Caminhamos, de fato, rumo ao progresso como queria Augusto Comte e seus discípulos positivistas que criaram a bandeira "Ordem e Progresso"? À revolução social, política e econômica como refletem e militam os anarquistas e marxistas? À salvação como desejam os cristãos em suas diferentes matizes? A ideia de que a História possui um sentido determinado a priori (telos) prevaleceu durante muito tempo e recebe o nome de teleologia; Nos tempos atuais, nos perguntamos se a História caminha para algum lugar... Barbárie?

Do ponto de vista sociológico, para Melucci (1997, p. 5), na modernidade, o tempo era linear; em sociedades complexas, descontínuo. A máquina, no capitalismo industrial, cujo melhor exemplo é o relógio, dava uma noção de continuidade aos indivíduos, rompendo com o tempo natural das coisas. Durante a modernidade, tinha-se em vista, no horizonte, um sentido ou um fim para o curso da História: o progresso, a revolução, a riqueza das nações ou a salvação da humanidade (um tempo linear que se move em direção a um fim é a última herança dessacralizada de um tempo cristão).

A modo de conclusão provisória, encerro com a provocação do historiador Fernando Novais, na conferência “Colonização e a formação do Brasil: estruturas e interpretações” do Café Filosófico: "Em História não basta tematizar, é preciso problematizar [...] em História não há soluções, há aproximações”.



REFLEXÕES SOBRE O DIA DOS PROFESSORES

                           Quanto maior o saber, maior o sofrimento   Eclesiastes 1:18   Eu não poderia suportar que me dissessem qu...